Conte-me algumas mentiras,
Apague-me de suas lembranças,
Mate-me as auto-cobranças,
Esfaqueie-me o sentimentalismo.
Mas, afinal, tudo já se fora por si só.
Limpei a minha alma com lágrimas,
sem questionar a Deus, nem lamentar.
Todos os nós que me prendiam eu mesma desatei.
Os rios da minha mente desbravei no escuro
e encontrei a sorte no dia da minha morte.
E estou mais viva:
O paraíso é o que faço dos meus pensamentos,
Inferno é não questioná-los.
Já perdi a noção do que o mundo me reserva por detrás dessa porta, desse guarda, desse entrar e sair de médicos ou enfermeiros com laudos, com exames ou com uma simples garrafa de café ao fim de tarde, que me anuncia à confeccionar essas datas. É hora de desenhar em cada folha um dia, e agrupá-las no mural, uma atrás da outra. Faço isso aqui mesmo na recepção, pois ao conversar com uma enfermeira, sinto-me mais normal, mais humano, esqueço-me do motivo que me trouxe mais uma vez aqui.
Horizontes pálidos na verde
aurora dos teus olhos
enlouqueço, adormeço
acordo a hora, à hora.
semanas que se estendem
e recaem sobre nossos coações
pacatos, frágeis - amantes.
Meu sono, meu sonho
lábios selados se beijam
o desejo nunca foi tão latente
a morte nunca outrora tão incoerente
os dias tornaram-se jornada
as noites, as tardes, passagens.
Fogos de artifício explodem
em silenciosos sorrisos
desvaneço em seu olhar
em seu olhar místico,
em seu sorriso tímido...
Como quem soubesse da vida.
Suas matrizes escondidas em nós
transformam os segundos em momentos infinitos.
Infinito-me na sua frequência
numa tenebrosa ausência:
colorida, doce, nova,
ardente, minha - nossa.
Cortejo sua neblina
anoiteço a sua rotina
entorpeço a sua mania
trago licor à sua poesia.
Desnorteio-me mais dia-após-dia
Releio e rabisco velhas poesias.
Quando mesmo eu te disse adeus?
Não. Não disse.
Te disse à deus,
O confessei nossas desilusões
Desse despedir-se eterno...
De um reencontro incoerente
Numa sala de um hospital
...
!
Aonde está o norte?
Estive lá há alguns dias.
Por sorte por bom motivo
De um sentido que cativo.
Embora não tenha sentido...
E o que tem sentido?
Minha mente suplica calma
Mas, ora-bolas, eu tenho Alma
E "quem tem alma não tem Calma"
Já escreveu Alberto
numa confissão de sentidos.
Reinvento-me desnorteada
Na volúpia desse estrago
Na volúpia desse enfado
Na volúpia desse afago...
São onze horas e dezessete
No relógio da minha vida
À meia-noite tudo passa.
Dezoito velas, quem diria?
Espalhe-as pelo quarto
Não quero bolo
Não quero recado no inbox
Não quero falsidade.
Veja bem, a Minha idade
Trouxe-me gozo na dor
Aprendi a remendar as fases,
Passei-me de santa
Costurei uma manta
Pra proteger-me do amor.
Mas tudo isso sem rancor
Sem apontar o vilão
Poi se houver um
Beijo-lhe a boca e agradeço
Por minha vida estar exatamente assim:
Como está!
Sem lamento, por favor .
Escute Piaf comigo
Faça um café, faça amor
Faça o que quiser,
Faça o que der pra fazer.
E o que não der, deixe estar,
Deixe a vida cuidar
Que a vida há de melhorar!
Sou navegante exploradora
desse imenso mar turbulento.
Vou sem pressa e sem anseio
hasteando as minhas velas
direcionada pelo vento.
Sem roteiro e sem mapas
ou planejados destinos,
dessa viagem apenas sei
que a minha única chegada
é também minha partida.
Hora navego, hora nado
gosto de sentir essas águas
dissolvendo o meu enfado,
as minhas concepções,
e tragando em suas ondas
minhas desilusões.
Não mais vivo, apenas navego:
Incerta, dissolvendo o meu ego
Assumindo que desconheço o mar
e já o amando, sem dizer amar.
Amanheço aos dias tortos
solta, desconhecida.
Sinto o que passo,
se não sinto não sei
o que passou ou onde estou
se eu passei ou se ainda vou.
Ensurdeço a memória,
e sei que ao fim da história
não passo e nem vou
e desconheço onde estou.
Se eu soubesse o que sinto
sairia além das paredes
sobrevoaria as nuvens
seguiria aos sonhos
aos sonhos tão reais.
Mas se anoiteço fugaz
sonho e já não lembro
Se passou ou se sonhei
e acordo e nada sei.
Sob a luz duma tarde clara cai no solo uma borboleta rara
aprendendo a voar.
Lagarta metamórfica
de asas azuis celeste
voa pelos ares
entre os céus e mares,
e se camufla, e se integra.
Entre a fenda de um precipício inexistente
e de um precipício da suma importância
ela sobrevoa contente
sua jornada
seu desfile celeste
seu derramar de gozo
nos olhares ao leste .
Reflete em suas curtas asas
a luz clara da lua,
a beleza da noite,
das estrelas nuas.
Reflete do dia o calor
no solo, na terra,
o desabrochar de uma flor
e em suas pétalas abertas:
o pouso ousado de amor.
Do néctar : seu perfume
Seu voo dançante ,
suas lagartas.
Voa experiente ao vento
Aprende enfim a voar ...
E cai, noturna ,
no cume do dia.
Como o cair das pétalas
das flores vazias ,