domingo, 24 de setembro de 2017

Isso Dá Poesia

Uma só poesia já não me cabe
os sentimentos das coisas e dos efeitos cresceram
me tornei uma grande sentimental.
Vivo além dos sentidos.

Faço de todas minhas ações pura sinestesia
quero ouvir; ver; tocar; cheirar; saborear.
E, quando não posso tudo,
sinto ao máximo com o que posso.

E tudo é mais uma poesia
(porque uma só não seria suficiente):
o trânsito, as pessoas na rua,
um tropeço que dei andando hoje mais cedo,
um olhar que tive pela janela,
uma coisa que ouvi de uma conversa,
tudo é motivo.

Afinal, a vida é uma grande poesia
até mesmo em seu desfecho, sempre perfeito:
de dor, de leveza, seja lá o que for.
A função do poeta é só transcrever a vida
que já é uma poesia feita.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

OS OUTROS POETAS


Os outros poetas têm, pra mim, uma relação de amor-ódio
Já não sei se os leio ou os deixo de lado
Visto que seus lindos poemas me distraem.
Suas palavras rebuscadas me intimidam
Ao modo que, ao mesmo tempo, me enamoram,
Me fascinam ao ponto de eu não saber se desisto da minha prosa ou invisto.
Quero ser um pouco mais Lispector,
Um pouco mais Pessoa,
Um pouco mais Martha Medeiros,
Um pouco mais Ginsberg,
E são tantos que eu nem posso enumerar
Todos eles: os que já escrevem ou escreveram e os que hão de escrever.
Os amo tanto... Cada estrofe, cada verso, com rima ou sem rima...


Tudo na poesia é amor
E tudo que esse amor me traz é ódio.
Como eu posso odiar amar tanto?

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Esperança

É uma música do Carpenters tocando.
É um filme em preto e branco no Belas Artes.
É o pôr do sol na Paulista...
É um poema sem rimas.
É uma unha roída.
É a comida deixada de lado.
É a angústia.
É uma conversa com o psicólogo.
É contradição dessa conversa.
É um arrepio.
É o estalar dos dedos.
É o anseio.
É o truco com os amigos.
É o orgulho.
É o orgulho.




terça-feira, 18 de julho de 2017

Frente Fria

Já não sei quem sou.
Tenho medo de olhar pra mim
E encontrar aquilo que me quebrou.

Talvez eu seja aquilo que sobrou
Das tardes quentes das primaveras da minha vida
Da linda flor que em mim brotou
Talvez eu seja a pétala caída.

O que aconteceu com os meus sonhos?
Se dissiparam pelos cantos onde passei
Pelas ruas e avenidas e esquinas
Pela longa caminhada que levei
Pra chegar no fim-de-mundo que cheguei.

Ah se não fosse a poesia
O que mais salvaria
Essas tardes frias de melancolia?


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Das Coisas Que Eu Me Lembro

Eu me lembro do exorcismo que me fizeram,
Antes fosse o capeta o meu problema.
Era ali só o começo das minhas desventuras.
Depois, eu me lembro daquele pronto socorro
Uma maca dura, faixas nos pés e nas mãos
que me prendiam brutalmente.
O descontrole mental e consequentemente corporal,
Uma comida intragável,
Um moço descontrolado gritando ao meu lado...
Mas passou.

Outra vez fui internada.
Dessa vez num hospital, onde eu voltaria mais tarde.
Eu me lembro da rádio tocando música pop, 
Eu me lembro do café nem-sempre-amargo servido puro aos pacientes nas tardezinhas, 
Eu me lembro dos remédios controlados,
Mas me lembro também que sai rápido da internação. 

Voltei àquele hospital, como já dito, e:
Foi horrível. 
Eu me lembro de passar noites inteiras amarrada à cama
Me contorcendo pra desamarrar nó a nó.
Eu me lembro de quando me anunciaram que meu avô havia falecido,
Eu fiquei triste, mas não chorei (não na hora).
Eu me lembro de quando me disseram que o carro do pai do meu então namorado havia quebrado e eles demorariam pra voltar 
Eu surtei um pouco mais.

Das coisas que eu me lembro da minha vida 
Percebo que de tantas desventuras que passei ou passo
Nem de João nem de José pertencem.
Digo, eu sofri sim quando João foi embora me deixando 
ou quando perdi José 
Mas a minha vida é complexa demais pra atrelar somente àmores a minha dor.
Me lembro, por fim, que se sofro hoje é porque
Inúmeras vezes no passado eu sofri também 
E hoje a minha sina é  desligar a cadeia de coisas que se formou
Vez por vez, uma por uma
Pra voltar, enfim, a minha paz.

- GSP





domingo, 2 de julho de 2017

O Meu Corpo



Todo corpo é uma história,
um livro de contos.
Cada conto uma curva,
uma estria, uma celulite.
 E o meu, não diferente,
é também uma história
que continua a se construir.
Aprendo lendo o meu corpo diariamente
e escrevendo em mim outras partes dessa história
emagrecendo ou engordando,
inchando ou desinchando,
criando músculos ou ficando flácida,
é minha história e só minha,
exclusiva, única e particular.

Meu corpo é uma história
um drama sempre sempre.
Engordando, inchando, tremendo.
Uma desventura após a outra.
E a sociedade é cruel
nos faz se sentir mal por algo natural
nos culpa por coisas que não temos culpa.
E eu cai nessa, me afundei
desisti de mim e a ansiedade me dominou
Cada vez mais engordando
Cada vez mais ansiosa
E a obsessão por emagrecer crescia
essa vontade insana por me enquadrar no padrão...
Mas posso dizer enfim que meu corpo é motivo de orgulho
pois é reflexo das minhas lutas
reflexo do meu sofrimento e prazer.


Eu Me Lembro

Eu me lembro daquela foto que você tirou minha e eu não gostei.
Eu me lembro da sua fascinação por estalar os dedos do pé.
Eu me lembro da sua vaidade pela sua barba.
Eu me lembro do cheiro dos doces da sua mãe.
Eu me lembro da carta que você escreveu pra mim e eu, em pura insanidade, não gostei.
Eu me lembro também da carta que você escreveu, e já dessa eu amei (e guardei).
Eu me lembro do seu jeito desengonçado de dançar e cantar suas músicas.
Eu me lembro de você tentando me puxar pra dançar na festa de casamento do seu primo.
Eu me lembro de você cantando desafinado no karaokê.
Eu me lembro do cheiro dos seus cabelos.
Eu me lembro das primeiras músicas que escutamos juntos.
Eu me lembro do primeiro show que fomos juntos.
Eu me lembro do primeiro beijo.
Eu me lembro das poesias que você escrevia e gostava que eu lesse.
Eu me lembro da textura dos seus cabelos e barba.
Eu me lembro dos detalhes de momentos bons que passamos e quero me lembrar apenas deles.
Quero me esquecer do que me desagrada e guardar somente esses bons momentos na memória.
E que eu possa escrever futuramente outras histórias
Outros amores, outras sensações, outras conquistas.
E que toda essa minha melancolia
se transforme outra vez em poesia.



sábado, 24 de junho de 2017

Buraco Negro

No seu olhar um buraco negro
Me tragando pra outro universo:
O desconhecido,
O inusitado.
Tal qual um mar de ressaca brava
Onde as ondas me levam pra sua imensidão.
Já não vejo a superfície
Difícil me encontrar aqui.
Perdida estou nos olhos teus
Nadando contra a maré
Querendo encontrar-me
Desesperada entre as ondas geladas
Das lágrimas que ficaram paralisadas
Numa noite fria como essa
Onde o desencontro entre outros passos
Dava à uma história ponto final.
Outros olhos se fechavam,
Outra noite adormecia.

No seu olhar um mar de dúvidas
Onde naufrago sozinha.
Esquecida entre olhares
Que se perdem no horizonte.

- GSP

Poesia baseada na arte (abaixo) do amigo Eric Mosterio.
Instagram do Eric: @ericmosterio


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Carta Ao Psicólogo

Eu ranjo os dentes.
Roo as unhas.
Tremo as pernas.
Estalo os dedos.
Tudo em mim é reflexo deste anseio
Onde a causa é evidentemente ausência dele.
Uma nostalgia incoerente.
Uma saudade estranha.

Rejeito este sentimento.
Não quero viver de passado
(Como diria minha mãe).
Mas é que quando lembro dele
Consequentemente lembro de uma boa época da minha vida
Onde não havia doença,
Não havia crise,
Não havia efeitos colaterais de remédios
E consequências da crise.

Nunca me imaginei escrevendo essa poesia.
É engraçado como as coisas mudam.
A vida é mesmo um caleidoscópio, doutor,
Mudando a todo tempo.

Outro dia mesmo eu recitava poesias debaixo de uma chuva fina.
E fotografava poetas desconhecidos porém incríveis
Enquanto Suplicy nos escutava atentamente
E nos honrava com sua presença incrível.
Eu beijava um poeta
Eu me emaranhava em seus cabelos e barba.
Tudo passou tão rápido...
Não me enxergo neste presente.
Parece que ontem eu estava mais viva.
E meu erro é relacionar isto à uma pessoa.

Caro psicólogo,
Eu as vezes até sinto nostalgia quando lembro de Rockland.
Porque lá haviam pessoas como eu:
Reais. Despidas de suas armaduras de arrogância.
É estranho dizer isto visto que eu passei por um mau bocado lá
Tantos traumas que até Deus duvida.
Mas lá eu estava afastada de tudo,
Cuidando de mim e apenas isso.
É muito incoerente esse sentimento?

Eu desejo que o tempo passe.
Eu desejo ver as próximas figuras que esse caleidoscópio vai dar.
Te trazer outros assuntos, outras novidades.
Me esquecer do que me trouxe más lembranças
E guardar o que foi bom com zelo
Mas sabendo que passou
E sabendo aproveitar o presente.



sábado, 17 de junho de 2017

Palavras Dispersas

A causa e o efeito das coisas
Que me trouxeram até aqui
Desconheço.
Sou o deter do tempo
Impedindo o devir
Sou o cansaço que fica
Depois de um dia inteiro
De risos e choros.
Fito minha câmera num canto do meu quarto
Enquanto escuto Belle & Sebastian
E junto palavras recortadas de pensamentos meus
Como uma criança recorta e junta palavras de jornais e revistas.
Hoje sou uma pessoa frustrada
Com poesias incompletas e fotografias chamuscadas.
Ah, essas minhas fotografias...
Seu sorriso ficou na memória
Como uma fotografia em preto e branco
Numa tarde no parque.
(Onde leva essa minha nostalgia?
Num achismo ridículo de pensar
Que ontem a grama era mais verde
E que os pássaros cantavam sinfonias
E hoje só assoviam)
Guardo as fotografias e poesias como relíquias
Não quero deixar passar nenhum instante
Sou todos eles
E não sou nenhum
Porque passaram.
E nessa incoerência sigo
Dispersa entre palavras.
Porque a sensação de ser e estar
Pulsa na minha mão
E as palavras são consequências
Desta dispersa pulsação.














Palavra Solta

 Buscar uma palavra solta faria sentido pra qualquer poesia mas a palavra solta não daria tanto sentido como falar sobre a palavra solta. ta...