sábado, 9 de janeiro de 2016

Ontem eu me perdi no caminho de casa.
Me perdi numa rua sem saída,
no caos da correria da cidade.
Me perdi mesmo e, quer saber,
se não me perdesse nunca me encontraria.

Ontem eu quis mudar o caminho
conheci uma rua escondida
um bosque com flores e oferendas.

Ontem eu cai quando corria.
Me espatifei no chão.
Depois me ergui despercebida
olhei pros lados e me senti sozinha
me senti única por espatifar-me ao chão.

Ontem eu conheci gente nova
gente que já se espatifou ao chão
gente que tinha coragem de dizer
sobre seu tombo, sobre sua queda.
Gente de verdade.
Gente que não teme .
Gente que não se esconde nos holofotes.
Gente que chora.
Gente que sente medo.
Gente que se perde.

Ontem eu sei que me perdi.
Mas das coisas que eu vivi,
das coisas que eu aprendi
estas jamais se perderão.

Gabrielle Portella

Rasgava o Sol

Rasgava o Sol à noite que durava quatro estações .
Inverno, outono, verão, primavera a florir sensações.
Cantei, pois, a um novo som, festejei, regozijei.
A sua face pintei. Então me abrace e somente sua serei.
Rabiscando versos no caderno eu vou
Devagar. A tinta vai traçando o meu amor.
O ontem então não mais será lagrimas de dor.

Ecoa na imensidão, será que podes ouvir?!
Uma serena canção, é inevitável sorrir.
Tocada por um piano, o canto é voz de mulher.
Emocionada ela está ao ouvir o coro da maré, que
A puxa à um destino totalmente desconhecido
Mar este que a traga ao amor que lhe é devido:
O amor que é verdadeiro, e assim correspondido.

Gabrielle Castaglieri

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Eu também estive em Rockland:
Suas paredes guardavam histórias
as histórias não ditas
a sociedade secreta
o medo
o desconhecido
o espetáculo
o Dom Quixote
os moinhos de vento.

Eu também estive em Rockland
Ditando verdades inventadas
verdades minhas.

Eu também estive em Rockland 
em suas paredes pálidas
em suas camas vazias
em sua conversa desvairada
em suas vozes frias.

Eu também estive em Rockland
em sua sede por emplastro.

Eu também estive em Rockland
no corpo já fatigado
na cama: sua paralisia
no pulso acelerado
no carnaval de fantasias.

Eu também estive em Rockland
eu e tanta gente
tanta gente esquecida
com histórias que nunca sairão de lá.

Eu também estive em Rockland
cantando desvairada qualquer música da rádio.

Eu também estive em Rockland.
Eu também estive em Casa Verde .
Eu também estive em La Mancha.

Gabrielle Portella



segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O Poeta

O poeta observa tudo discreto
em sua retina os versos se conectam,
as suas mãos castigadas pela escrita
revelam a sua paixão e a sua vida.

O poeta instiga-me os sentidos
com a sua beleza singela,
em seu olhar compreensível,
em sua ternura dispersa.

O poeta quebra-me a rotina
e desperta-me a paixão
a cada estrofe de sua poesia
sinto-me mais viva .

O poeta não sabe ou imagina
que seu traçar não é só no papel
ele inventa histórias ,
ele foge das rimas,
ele cantarola o poema,
ele sobe no caixote,
ele proclama pelas ruas,
ele me faz sentir bem forte
a felicidade por ser sua.


Gabrielle Portella























domingo, 25 de outubro de 2015

A Minha Caverna Sou Eu

A minha caverna sou eu.
Me escondo diariamente de quem sou,
tento esquecer o que me corrói,
tento fingir que estou bem.
Todas as noites um sono maldito me ilude
com a fantasia daquilo que queria ser.
Ele sufoca-me ao acordar .
Estou perdida!

Minha esperança eu plantei e rego-a com lágrimas.
A tristeza me é como fonte de realidade,
quebra-me as ilusões e fortalece-me as verdades.
Estou forte porque estou triste.

Minh'alma está atada numa cama de hospital,
O hospital é os meus pensamentos.
Desatarei nó por nó dessa minha condição
na ala dos meus sentimentos.

O passado é sempre melhor que o presente,
e no futuro desejamos o que um dia foi presente detestado.
É aquela velha história do "eu era feliz e não sabia".
Minhas feridas de outrora castigadas
hoje me parecem meros machucados.
E o que vivo ? Me é como câncer nas minhas ideias.

A felicidade é furtiva, passageira e inquietante.
ah se meu riso durasse mais que um pequeno instante,
ah se a vontade perdurasse em minha cabeça
e não se afogasse no desanimo
e não se detivesse no tempo fugaz.

E essa reticência que eu sempre ponho,
quando o que eu queria era dar ponto final,
uma exclamação, quiça, serviria .
Mas acabo em depressão, tristeza e poesia
...

Mas não me faltará páginas pra rascunhar a minha lástima,
depois da reticência pode haver um novo capítulo,
nesse posso pôr ponto final na minha angústia
e escrever um novo livro pra minha história.

Há tanta gente no mundo com tantos medos quanto a mim,
há Dom Quixote em toda parte lutando contra moinhos de vento
E eu sou um deles.

Secarei o meu choro que torna os meus olhos embaçados
assim verei melhor o horizonte,
onde a paisagem é mais bela .


domingo, 5 de julho de 2015

Estou Viva

Conte-me algumas mentiras,
Apague-me de suas lembranças,
Mate-me as auto-cobranças,
Esfaqueie-me o sentimentalismo.
Mas, afinal, tudo já se fora por si só.

Limpei a minha alma com lágrimas,
sem questionar a Deus, nem lamentar.
Todos os nós que me prendiam eu mesma desatei.
Os rios da minha mente desbravei no escuro
e encontrei a sorte no dia da minha morte.

E estou mais viva:
O paraíso é o que faço dos meus pensamentos,
Inferno é não questioná-los.

Gabrielle Portella

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Dia 17

Segunda-feira, 17 de novembro de 2014

 Já perdi a noção do que o mundo me reserva por detrás dessa porta, desse guarda, desse entrar e sair de médicos ou enfermeiros com laudos, com exames ou com uma simples garrafa de café ao fim de tarde, que me anuncia à confeccionar essas datas. É hora de desenhar em cada folha um dia, e agrupá-las no mural, uma atrás da outra. Faço isso aqui mesmo na recepção, pois ao conversar com uma enfermeira, sinto-me mais normal, mais humano, esqueço-me do motivo que me trouxe mais uma vez aqui.

Sábado, 17 de janeiro de 2015.

Les Yeux Ou-Verts

Horizontes pálidos na verde
aurora dos teus olhos
enlouqueço, adormeço
acordo a hora, à hora.
semanas que se estendem
e recaem sobre nossos coações
pacatos, frágeis - amantes.

Meu sono, meu sonho
lábios selados se beijam
o desejo nunca foi tão latente
a morte nunca outrora tão incoerente
os dias tornaram-se jornada
as noites, as tardes, passagens.

Fogos de artifício explodem
em silenciosos sorrisos
desvaneço em seu olhar
em seu olhar místico,
em seu sorriso tímido...
Como quem soubesse da vida.
Suas matrizes escondidas em nós
transformam os segundos em momentos infinitos.

Infinito-me na sua frequência
numa tenebrosa ausência:
colorida, doce, nova,
ardente, minha - nossa.
Cortejo sua neblina
anoiteço a sua rotina
entorpeço a sua mania
trago licor à sua poesia.


Gabrielle Lamarque e Pedro Venturini

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Desnorteio

Desnorteio-me mais dia-após-dia
Releio e rabisco velhas poesias.
Quando mesmo eu te disse adeus?
Não.  Não disse.
Te disse à deus,
O confessei nossas desilusões
Desse despedir-se eterno...
De um reencontro incoerente
Numa sala de um hospital
...
!

Aonde está o norte?
Estive lá há alguns dias.
Por sorte por bom motivo
De um sentido que cativo.
Embora não tenha sentido...

E o que tem sentido?

Minha mente suplica calma
Mas, ora-bolas, eu tenho Alma
E "quem tem alma não tem Calma"
Já escreveu Alberto
numa confissão de sentidos.

Reinvento-me desnorteada
Na volúpia desse estrago
Na volúpia desse enfado
Na volúpia desse afago...

São onze horas e dezessete
No relógio da minha vida
À meia-noite tudo passa.
Dezoito velas,  quem diria?
Espalhe-as pelo quarto
Não quero bolo
Não quero recado no inbox
Não quero falsidade.
Veja bem, a Minha idade
Trouxe-me gozo na dor
Aprendi a remendar as fases,
Passei-me de santa
Costurei uma manta
Pra proteger-me do amor.

Mas tudo isso sem rancor
Sem apontar o vilão
Poi se houver um
Beijo-lhe a boca e agradeço
Por minha vida estar exatamente assim:
Como está!

Sem lamento, por favor .
Escute Piaf comigo
Faça um café, faça amor
Faça o que quiser,
Faça o que der pra fazer.
E o que não der, deixe estar,
Deixe a vida cuidar
Que a vida há de melhorar!

Gabrielle Portella

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Latente

Estou delirando
mas estou consciente,
estou dispersa,estou ausente .

As datas memoráveis
sobrevoam o meu quarto
e se afastam lentamente.

Mas o último domingo
discretamente se  destaca
e entorpece a minha mente.

Velhas cartas e poesias
são apenas cartas e poesias
são apenas textos incoerentes.

A fragrância desse dia
tem o seu cheiro, sua boemia
no pulsar: felicidade latente .

...

Quem diria que sem pretensão
num só dia o meu coração
encontraria uma direção?!


Gabrielle Portella

sábado, 13 de dezembro de 2014

Navegante

O sol abaixou-se no horizonte
o dia findou-se incerto e duvidoso
a noite escurecia devastadora:
Mais um dia , mais uma hora,
mais alguns instantes ,
e o ciclo se reinicia.

A incerteza do que sou
me aguarda ao alvorecer
e me suspende o dia .
Guio-me pelos faróis da existência
à margem do mar da vida
na praia do Será-fim .

Sou navegante exploradora
desse imenso mar turbulento.
Vou sem pressa e sem anseio
hasteando as minhas velas
direcionada pelo vento.

Sem roteiro e sem mapas
ou planejados destinos,
dessa viagem apenas sei
que a minha única chegada
é também minha partida.

Hora navego, hora nado
gosto de sentir essas águas
dissolvendo o meu enfado,
as minhas concepções,
e tragando em suas ondas
minhas desilusões.
Não mais vivo, apenas navego:
Incerta, dissolvendo o meu ego
Assumindo que desconheço o mar
e já o amando, sem dizer amar.


Gabrielle Portella






Palavra Solta

 Buscar uma palavra solta faria sentido pra qualquer poesia mas a palavra solta não daria tanto sentido como falar sobre a palavra solta. ta...